França : as reivindicações do « crer » e a necessidade de um pluralismo de pensamentos

Abstract : Para um observador brasileiro que resida na França, a questão do « crer » e o lugar público das « religiões » na sociedade francesa é, sem dúvida, um assunto de surpresa cotidiano. Com efeito, no país das « Lumières », o ato de crer – e mais ainda, o da conversão – é frequentemente entendido nesse país como uma atitude enigmática, que supõe causas ocultas que escapam aos registros dos raciocínios plausíveis. Esse ato de crer é questionado como se fosse uma ruptura com a norma social e, mesmo que não se queira emitir julgamentos, suspeita-se mesmo assim de um possível perigo. Inversamente, para um observador francês que se aventure no Brasil, o que surpreende antes é a impressão de uma presença permanente do sagrado na sociedade . Mais ainda, o espanto prossegue, por um lado, pela aparente simplicidade da coabitação entre formas religiosas que seriam, na França, consideradas como em profundo desacordo (espiritismo, catolicismo, religiões afro-brasileiras, pentecostalismos e novos movimentos religiosos, etc.) e, por outro lado, pela tolerância quase passiva pela qual a filosofia positivista, oriunda de um racionalismo ateu e agnóstico, parece não se perturbar com o papel social, público e político que exercem as religiões na sociedade brasileira. Essas atitudes franco-brasileiras – que estão quase que caricaturalmente nos antípodas uma da outra – tem, entretanto, em comum o fato de não favorizarem realmente um diálogo entre as diferentes perspectivas de fé. No Brasil, essa tolerância passiva esconde na realidade uma ausência de debates, já que basta fazer uma referência a Deus para que surja uma neutralidade consensual que aniquila todo espírito crítico. Por outro lado, na França logo que Deus é invocado, são levantadas barricadas e, com elas, os velhos argumentos da razão contra a fé. Em resumo, entre o esquivar-se de um debate que não considera posturas ateias ou agnósticas (à maneira brasileira), e uma tensão frenética que rejeita todo desejo de crença (à maneira francesa), não existe em ambas um espaço real onde se exerça tanto a reflexão quanto o diálogo entre o pluralismo das posturas agnósticas e religiosas. Desta maneira, o exame do caso francês poderá interessar ao leitor brasileiro: como um contraponto que, em termos radicalmente diferentes, coloca a iminente questão do pluralismo religioso e das posturas de fé ou de ateísmo.
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Contributor : Christophe Pons <>
Submitted on : Monday, February 27, 2017 - 2:23:35 PM
Last modification on : Thursday, January 18, 2018 - 2:24:56 AM

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Christophe Pons. França : as reivindicações do « crer » e a necessidade de um pluralismo de pensamentos. Helio Aparecido Teixeira, Iuri Andréas Reblín, Nivia Ivette Núñez de la Paz (eds.). Subterrâneo Religioso: reflexões a partir do pensamento de Oneide Bobsin, Karywa, pp.69-86, 2016. ⟨halshs-01477499⟩

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