O crioulo de Santiago (República de Cabo Verde)

Résumé : Na República de Cabo Verde, a par do português, língua oficial e de escrita, fala-se o crioulo ou língua caboverdiana, que constitui o vernáculo e o idioma mais correntemente usado pelo conjunto da população caboverdiana. Em Cabo Verde, o português é a língua da escola e da administração e também a língua que escritores como Baltasar Lopes, Germano Almeida, e muitos outros, escolheram para falar da sua terra, e da gente que nela vive. No entanto, na sua vida quotidiana, os Caboverdianos falam, pensam, amam, têm expectativas e experimentam emoções em crioulo.
Quando, em 1995, cheguei a Caboverde em cumprimento do serviço militar no quadro da cooperação, já tinha estudado a língua portuguesa e era capaz de me exprimir neste idioma. Mas depressa percebi que o português não era suficiente para entrar na intimidade dos caboverdianos, e que precisava de aprender o crioulo para poder participar directamente nas conversas da rua e na vida do país.
Portanto comecei logo a aprender Caboverdiano. Mas essa não foi uma aprendizagem fácil porque não havia dicionários de crioulo, apenas umas quantas gramáticas, nenhum método, nenhuma aula (que soubesse) para os estrangeiros. A aquisição do Caboverdiano foi um esforço de cada momento, procurava regras e tentava descobrir o significado das palavras, perguntando, ouvindo, escutando e pedindo explicações. Às vezes tinha a impressão de andar às apalpadelas numa floresta de palavras, de flexões, de expressões, cuja coerência e princípios organizadores me pareciam opacos ou fugitivos.
Porém, os meus numerosos amigos caboverdianos sempre me animaram a prosseguir e, a pouco e pouco, os mistérios da língua crioula foram-se desvanecendo, e passei a compreendê-la melhor, pudendo participar nas conversas e, em consequência, conhecer mais caboverdianos, conviver mais com eles, e aprender mais coisas ainda sobre a sua língua. No fim da minha estadia em Cabo Verde, que durou cerca de dois anos, acumalara uma quantidade importante de dados e informações de primeira mão (ou melhor dito : de primeira boca) sobre a língua caboverdiana e, mais particularmente, sobre o crioulo da ilha de Santiago, onde residi na maior parte do tempo em que estive no Arquipélago. Sendo essa língua ainda pouco conhecida, julguei que o que aprendera dela podia interessar a outros linguistas e investigadores, e decidi consagrar a minha tese de doutoramento em linguística hispânica à descrição e compreensão da língua caboverdiana, nomeadamente da sua variante santiaguense.
Esta tese, ao lado de várias publicações lexicais bilingues propondo traduções do Caboverdiano para (ou a partir de) o francês ou o português , contitui o essencial das minhas pesquisas sobre o Caboverdiano. Nessa comunicação, vou tentar fazer uma breve síntese destas investigações, destacando os temas que me parecem ser mais característicos e interessantes desde um ponto de vista linguístico, a saber :
- 1. a originalidade do crioulo santiaguense relativamente ao português e a outras línguas ;
- 2. as perspectivas filológicas que oferece o estudo de dito crioulo ;
- 3. o aspecto socio-linguístico que tem aqui uma relevância particular, tendo em conta os problemas de diglossia da sociedade caboverdiana contemporânea.
Document type :
Conference papers
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https://halshs.archives-ouvertes.fr/halshs-00341715
Contributor : Nicolas Quint <>
Submitted on : Tuesday, November 25, 2008 - 5:29:34 PM
Last modification on : Friday, January 4, 2019 - 5:33:05 PM

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  • HAL Id : halshs-00341715, version 1

Citation

Nicolas Quint. O crioulo de Santiago (República de Cabo Verde). XV Encontro Nacional da Associação Portuguesa de Linguística, 1999, Faro, Portugal. pp.167-181. ⟨halshs-00341715⟩

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