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Interacções morfológicas entre verbo e objecto no crioulo da ilha de Santiago (República de Cabo Verde)

Résumé : A maioria dos estudos (inclusive os mais recentes) dedicados às diversas variantes da língua caboverdiana, e mais particularmente aos dialectos do Sotavento, costuma insistir no carácter reduzido (em comparação com o português) da morfologia do verbo nesta língua. Assim, o linguista Manuel Veiga (Veiga, 1995: 189) afirma que «os verbos regulares, salvo algumas excepções (...) não têm flexão », enquanto a investigadora Marlyse Baptista (Baptista, 1997: 58) sublinha «a ausência, no verbo caboverdiano, de qualquer marca de número ou de pessoa no paradigma de determinado tempo. »
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A meu ver, estas opiniões têm de ser matizadas, pelo menos no que diz respeito ao dialecto que se fala na ilha de Santiago, o chamado "badio". É verdade que o verbo santiaguense não muda, em princípio, de forma em função do sujeito gramatical (quer se trate dum pronome quer dum substantivo):
- (1) m-kánta, nu kánta, Djom kánta, nhu kánta /'~kãt, nu 'kãt, d♦õ 'kãt, ñu 'kãt/ cantei, cantámos, o João cantou, o senhor (forma alocutiva de respeito) cantou.
Porém, no crioulo de Santiago, o verbo já não permanece inalterado quando se encontra combinado com o seu objecto, como o demonstram as formas seguintes do verbo regular skesi /'skesi/ esquecer:
- (2) e skesi, e skesê-m, e skesê-nu, e skesi Djom, e skesi-nhó /e 'skesi, e ske'sℜ, e ske'senu, e 'skesi 'd♦õ, e 'skesi 'ño/ esqueceu, esqueceu-me, esqueceu-nos, esqueceu o João, esqueceu-o (o senhor).
Constatamos neste exemplo que o verbo badio modifica a tonicidade e o timbre da sua última vogal em função do objecto que o segue.
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Assim, para bem compreendermos a morfologia do verbo no crioulo caboverdiano de Santiago, é preciso tomarmos em conta o objecto deste verbo, o que, talvez devido à influência das gramáticas normativas das línguas da Europa Ocidental, geralmente não tem chamado a atenção. No entanto, também as marcas de objecto podem ser parte integrante da morfologia do verbo em vários idiomas, facto que averiguaremos mediante alguns exemplos significativos apresentados na primeira parte deste estudo.
Numa segunda parte, examinaremos mais atentamente as características da interacção verbo-objecto no crioulo santiaguense e tentaremos compreender e explicar o seu funcionamento actual, recorrendo a uma perspectiva diacrónica e aproveitando os nossos conhecimentos sobre a língua caboverdiana moderna.
Por fim, numa terceira parte, trataremos de mostrar que a morfologia do complexo verbo-objecto no badio contemporâneo apresenta algumas tendências que podem ser relacionadas com o aparecimento de flexões verbais sintéticas noutras famílias de línguas, nomeadamente a família indo-europeia.
Document type :
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https://halshs.archives-ouvertes.fr/halshs-00341580
Contributor : Nicolas Quint <>
Submitted on : Tuesday, November 25, 2008 - 3:06:07 PM
Last modification on : Friday, March 27, 2020 - 3:44:57 AM

Identifiers

  • HAL Id : halshs-00341580, version 1

Citation

Nicolas Quint. Interacções morfológicas entre verbo e objecto no crioulo da ilha de Santiago (República de Cabo Verde). Papia, 2004, pp.71-83. ⟨halshs-00341580⟩

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