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A realização do sujeito em português do Brasil : deriva versus crioulização

Résumé : Pesquisas sobre a variante brasileira da língua portuguesa (daqui em diante PB ) registraram um processo de reestruturação do paradigma pronominal em que os pronomes pessoais tu e vós, desencadeadores de marcas de flexão verbal de 2ª pessoa do plural, foram substituídos pelas formas de tratamento você e vocês, usadas para referência à 2ª pessoa do discurso e desencadeadoras de marcas de flexão verbal de 3ª pessoa . Esse processo de reestruturação teve como conseqüência uma redução no paradigma de marcas morfológicas de flexão verbal. Essa constatação foi correlacionada a outros dados, entre eles o aumento do preenchimento da posição de sujeito, uma vez que a redução no paradigma de flexão verbal impossibilita a identificação referencial do sujeito nulo– ver Kato & Negrão (2000), Tarallo (1996) e Duarte (1996; 2000), Galves (1993) entre outros. Destas publicações e estudos, desprendem-se dois fatos fundamentais:
- 1. os dados apontam para um aumento contínuo do preenchimento da posição de sujeito em PB desde o século XIX até hoje (cf. Tarallo 1996:48; Duarte 1996:112). Logo, expressões do tipo eu canto, ele canta (com pronomes sujeitos pré-verbais) tendem a prevalecer sobre as formas de sujeito nulo canto, canta. A análise de produções orais contemporâneas de diversos grupos etários apresenta resultados comparáveis: as gerações mais jovens é que mais frequentemente usam pronomes sujeitos pré-verbais (Duarte 2000: 20-22).
- 2. os dados disponíveis mostram que o PB falado preenche a posição do sujeito com uma freqüência mais elevada do que o PB escrito (Duarte 1996: 121-122) e o português europeu (daqui em diante, PE ); ou seja, a tendência para o uso de pronomes sujeitos pré-verbais aparece como um traço nitidamente inovador, próprio do PB falado. Negrão (1999), a partir da análise de um corpus de língua oral, mostra que o aumento do preenchimento da posição de sujeito no PB não está diretamente ligado ao processo de redução do paradigma da flexão verbal. Negrão (1999) e Negrão e Viotti (2000) argumentam que a presença de pronomes na posição de sujeito não é uma conseqüência da impossibilidade de identificação referencial do sujeito nulo, decorrente da redução do paradigma flexional. O preenchimento da posição de sujeito decorre da adoção de uma outra estratégia para a recuperação da interpretação referencial de seus sujeitos nulos: a da proeminência discursiva, resultante do fato de o PB ser uma língua cuja estruturação hierárquica das sentenças privilegia marcar o conteúdo informacional de seus constituintes.
Neste artigo, pretendo demonstrar que o fenômeno observado em PB aparece como a prolongação de uma tendência amplamente atestada nas línguas românicas: nomeadamente, a progressiva erosão das desinências pessoais sufixadas ao verbo (herdadas do latim e através dele do indo-europeu) e a paulatina substituição dessas desinências por pronomes pré-verbais (geralmente qualificados de “sujeitos” nas gramáticas tradicionais), que passam a suprir as ambigüidades geradas pela redução das desinências verbais.
A argumentação apresentada neste trabalho será embasada por uma dupla série de comparações do paradigma das marcas de pessoa do verbo em PB com:
(i) outros idiomas neo-latinos, começando pelas variedades mais próximas do PB, ou seja o PE e o galego;
(ii) o crioulo caboverdiano (língua crioula com base lexical portuguesa), a fim de testar a eventualidade de o preenchimento da posição de sujeito em PB poder ser explicado por uma fase inicial de crioulização do português renascentista no princípio da colonização do Brasil (cf. Baxter: 1992; Holm 1989: 299-303; 1992; Parkvall: 2000; Tarallo 1996).
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https://halshs.archives-ouvertes.fr/halshs-00341538
Contributor : Nicolas Quint <>
Submitted on : Tuesday, November 25, 2008 - 2:13:43 PM
Last modification on : Friday, March 27, 2020 - 3:45:01 AM

Identifiers

  • HAL Id : halshs-00341538, version 1

Citation

Nicolas Quint. A realização do sujeito em português do Brasil : deriva versus crioulização. FIORIN, José Luiz & PETTER, Margarida. África no Brasil, Contexto, pp.75-88, 2008. ⟨halshs-00341538⟩

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